O que fica dele é o espírito público e o desapego

Postado em 3 de julho de 2023 por

Categoria: Notícias

Curitiba – João Paulo Wright, analista de sistemas, 40 anos, olha para o nada para definir a personalidade do pai: persistente e idealista. Casado, pai de duas filhas, ele ainda carrega na família as marcas da intolerância. Por muitos anos foi chamado na rua de “filho do terrorista” e até seus filhos acabaram discriminados pela atuação política do avô. João Paulo era pequeno quando o pai vivia na clandestinidade, mas lembra com segurança de alguns momentos de visitas escondidas à casa da mãe, em Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba. “Os encontros eram sempre tensos, rápidos, na casa de amigos ou em lugares desertos”, recorda.

João Paulo ainda era uma criança. Mas ouvia atento diálogos entre o pai e a mãe. Como o travado em uma das visitas quando Paulo relatava a morte de uma general da ditadura. “Pensava: mas o que meu pai quer com essa luta? Não entendia sua vontade de abrir mão de tudo em busca de seus ideais”, conta João Paulo, que viu o pai pela última vez aos oito anos de idade. “Uma cena que ficou na minha cabeça foi um encontro entre o pai e um sindicalista de Joinville, em um parque de Curitiba. O sindicalista tinha uma adoração pelo pai e chegou no local de guarda-chuva, apesar do sol. Era para não ser reconhecido”, recorda.

As marcas da militância do pai estão em toda a casa onde mora, num bairro de classe média de Curitiba. No álbum de fotografia, no nome do filho mais novo – Paul Stuart Wright -, na educação dos outros filhos, Francis e Bianca, e até no velho piano que enfeita a sala e que foi dado por Paulo a Edi como presente de casamento. Mas o que mais ficou foi o preconceito. “Minha mãe sempre disse para a gente esconder a condição do pai. A questão de colocar medo nas pessoas, naquela época, era presente”, diz.

O desapego do pai às questões materiais e sua força em lutar contra as injustiças norteou sua educação e a dos filhos. “Ele tinha uma formação intelectual muito sólida, um espírito público e desapego. Não podia ver ninguém na pior que corria para ajudar”, garante. Paulo jamais utilizou o salário de deputado estadual para despesas em casa. “Ele achava isso imoral”, conta João Paulo. “A gente sofreu e sofre muito com isso até hoje. Foi uma grande perda para o País e só agora isso começa a ser divulgado”, conclui João Paulo que, ao contrário do pai, não seguiu a carreira política. (Luis Fernando Assunção)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

cinco × 1 =