Esclarecimento sobre morte de Paulo Stuart Wright e indenização não apagam dor da família

Postado em 3 de julho de 2023 por

Categoria: Artigos

Os mistérios em torno da prisão, morte e ocultação do corpo do ex-deputado Paulo Stuart Wright, assassinado em 1973 em Itapevi, na Grande São Paulo, já foram desfeitos. Há duas décadas, a família foi indenizada, com base na lei nº 9.140, de 4 de dezembro de 1995, criada para ressarcir monetariamente as perdas humanas provocadas pelas torturas e mortes durante a ditadura. Contudo, nada há que remova ou aplaque o sofrimento decorrente do crime, um dos muitos praticados pelos governos militares no Brasil. “Foi difícil desde a cassação de meu pai, passando pelos anos de clandestinidade, quando os encontros eram muitos esparsos e perigosos”, conta o filho João Paulo, 54 anos, hoje morando em Curitiba. “A família foi se esfacelando, minha mãe adoeceu e morreu, depois perdi minha irmã. Ele nos fez muita falta”.

No mês passado, um vasto material batizado com nome de Acervo da Ditadura foi doado pelo Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça ao IDCH (Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas), da Faed/Udesc, em Florianópolis. O caso Paulo Wright é o que reúne o maior número de pastas com documentos pessoais, reportagens, fotografias, artigos e correspondências, porque ele é o mais conhecido dos dez catarinenses mortos e desaparecidos durante o período. Além disso, era irmão do pastor Jaime Wright, militante dos direitos humanos que atuou ao lado do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, da arquidiocese de São Paulo, no projeto Brasil: Nuca Mais.

Em 1º de setembro de 1973, quando estava num trem urbano em São Paulo com outros companheiros, Paulo Wright foi seguido por agentes comandados pelo major Ubirajara Brandt Rodrigues, do Centro de Informações do Exército. Acostumados a esse tipo de situação, os militantes perceberam o perigo e se separaram, mas Wright acabou preso e nunca mais foi visto. “Eles iam se encontrar com outro companheiro, mas ele fora preso no dia anterior e deu informações à Operação Bandeirantes”, conta a professora aposentada Derlei Catarina de Luca, que conhecia Wright desde os 14 anos, quando morava em Içara, no Sul do Estado. “Ele me ajudou a sair do país e salvou minha vida”, diz Derlei, que havia sido presa e torturada em 1969 em São Paulo.

Assassinato na Boate Querosene, em 1973

Após incansável trabalho de mais de 40 anos para explicar o que aconteceu, Derlei de Luca descobriu que Paulo Wright foi morto na Boate Querosene, em Itapevi (SP), nos primeiros dias de setembro de 1973, por uma equipe da qual faziam parte o capitão Enio Pimentel da Silva, o capitão Freddie Perdigão Pereira, o sargento Roberto Artoni, o sargento João de Sá Cavalcanti Netto e o capitão André Leite Pereira Filho. O agente Walter Lang, conhecido como Alemão, estava na equipe que sequestrou Wright no trem e foi quem, segundo Derlei, deu sumiço no corpo, provavelmente decapitado e jogado num rio próximo à antiga boate usada para liquidar os inimigos do regime.

Paulo Wright nasceu em Joaçaba, no Vale do Rio do Peixe, em 1933, filho de missionários presbiterianos originários dos Estados Unidos. Formou-se em sociologia no estado americano de Askansas e retornou ao Brasil em 1956 para se casar com Edimar Rickli (com quem teve os filhos Charles, Leila e João Paulo) e trabalhar junto aos movimentos sociais e sindicatos de trabalhadores, em São Paulo. Com a morte da mãe, retornou a Santa Catarina para auxiliar o pai em suas atividades missionárias, mas se envolveu com os metalúrgicos de Joaçaba, onde se candidatou a prefeito pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), perdendo e eleição por apenas nove votos.

Em 1958, convidado pelo governador Celso Ramos, assumiu a direção da Imprensa Oficial do Estado e começou a organizar uma federação de cooperativas de pesca nos municípios do litoral. Elegeu-se deputado estadual em 1963 pelo PSP (Partido Social Progressista), mas sua atuação rendeu uma denúncia de subversão e, por pressão dos militares, ele foi cassado em 9 de maio do ano seguinte, sob alegação de falta de decoro parlamentar – com votos de parlamentares do próprio partido. Andou pelo México, Cuba e China e ingressou na AP (Ação Popular), organização extremamente organizada que educava os militantes. No episódio da cassação do mandato, a Assembleia Legislativa curvou-se à pressão do regime, como ocorreu em outros Estados do país.

João Paulo Wright, técnico em eletrônica, filho de Paulo Stuart Wright
“O sofrimento nunca termina, está no dia a dia”

Mesmo por telefone, dá para perceber a emoção com que João Paulo Wright, 54, fala do pai morto na ditadura. Técnico em eletrônica, ele mora em Curitiba, para onde a família se mudou após o desaparecimento de Paulo Stuart Wright, em 1973. Ele diz que “o sofrimento nunca termina, está no dia a dia”, e que o fato de não haver os restos mortais para enterrar é um trauma a mais, como sempre acontece nessas situações. Nascido um ano antes do golpe de 1964, João Paulo fala, nesta entrevista, sobre como a perda do marido e pai esfacelou a família. “Uma vez um repórter me perguntou como eu reagiria se meu pai aparecesse na porta de casa”, conta. “Por um momento, tive a sensação de que aquilo era possível”. 

Como era a relação da família com Paulo Wright, que depois de cassado passou anos como clandestino dentro e fora do Brasil, fugindo de seus perseguidores?

Nossos encontros eram espaçados e às vezes ele marcava e não aparecia, por questão de segurança. Quando eu tinha dez anos, meu pai foi sequestrado em São Paulo e nunca mais foi visto. Foi dramático, angustiante para mim e minha irmã Leila. Professora primária, nossa mãe nos reuniu uma noite, na cama, e disse: “Acho que o pai de vocês morreu”. A mãe adoeceu e depois eu perdi também a irmã – elas estão no mesmo túmulo. Até 1975, nós também ficamos na clandestinidade. 

Como foi que trabalharam com a perda e com a ausência dele?

Nossa vida seria diferente se ele estivesse presente, porque os pais influenciam nas decisões dos filhos. Meu pai fez muita falta, especialmente para minha mãe e minha irmã. A ditadura provocou um desmonte familiar. Tivemos a proteção da mãe e nos abrigamos numa chácara perto de Curitiba. Era um paraíso natural, com escola próxima. Tivemos uma boa formação, mas o sofrimento voltou com a abertura política, quando entendemos melhor o que aconteceu com o país. 

Você ainda alimenta a esperança de encontrar os restos mortais de seu pai?

Os familiares dos desaparecidos têm ido ao cemitério de Perus, em São Paulo, onde ainda há muitas ossadas que não foram identificadas. Muitas estão sem as mãos e cabeça, justamente para dificultar a identificação. Muitos corpos foram jogados no mar, em rios, em fornos. Existe pouca esperança de encontrar qualquer coisa, pela visibilidade que ele tinha. Era uma liderança muito carismática, com capacidade de mobilização popular e discurso forte. O incrível é que muitas pessoas ainda não acreditam que tudo aquilo aconteceu e que o regime militar torturou e matou tanta gente. 

A família foi indenizada. Isso amenizou um pouco a dor da família?

Quando saiu a indenização, há cerca de 20 anos, nós aceitamos, porque tínhamos um filho pequeno. Sei que meu tio Jaime Wright não iria aceitar. Hoje eu também não aceitaria, foi um erro, mas eu não tinha maturidade na época. Não existe possibilidade de reparação financeira para um crime assim. Admito que foi um momento de fragilidade e imaturidade – o ideal era não ter aceito, até porque meu pai não era apegado a bens materiais. 

Você sente que tem alguma coisa a fazer pela história de seu pai?

Aos 54 anos, ainda tenho metas de vida. Quero voltar a fazer a pé o caminho de meu pai pelo litoral catarinense, onde ele criou várias cooperativas de pesca. Ele e minha mãe foram dois missionários que vieram dos Estados Unidos e da Europa para dar melhores condições de vida ao povo. Viver com sua falta é um aprendizado diário. Lembro que minha irmã Leila, ainda criança, ia com ele nos comícios em Florianópolis. Gostaria de fazer um velório para ele, com todas as cerimônias de praxe. No mundo inteiro é assim: até nas guerras se respeita o ritual, os inimigos param os combates para o resgate dos mortos. 

Como você vê a situação do país, neste momento?

Estou angustiado. Quando José Serra lançou seu livro eu fui lá, achei que ele seria uma saída, porque foi exilado, mas no dia seguinte apareceu a notícia dos 23 milhões de dólares depositados na conta dele. Não posso colocar a história do meu pai nesse meio. Os velhos militantes, como Serra e Fernando Henrique Cardoso, mudaram de lado. Hoje, a empresa onde trabalho tem 230 funcionários, mas já teve 700. O país tem muita bandalheira, concentração de renda, a cidadania pisoteada e uma crise de lideranças. Se estivesse vivo, meu pai teria 85 anos e certamente sofreria muito ao ver o quadro atual. Sempre me pergunto como vamos reconstruir o país outra vez.

Comissão Estadual da Verdade Paulo Stuart Wright: decreto assinado

Postado em 3 de julho de 2023 por

Categoria: Notícias

O governador Raimundo Colombo assinou no final da tarde desta sexta-feira, dia 1º de março, o decreto que cria a Comissão Estadual da Verdade Paulo Stuart Wright. Ela será composta por cinco membros, que serão escolhidos pelo poder público entre brasileiros de reconhecida conduta ética. A comissão foi criada para auxiliar nos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), do Governo Federal e que busca esclarecer violações dos direitos humanos praticados durante o período de 18 de setembro de 1946 a 5 de outubro de 1988.

“Ainda hoje há muitos filhos e filhas que viram seus pais desaparecerem de um dia para o outro. Incapazes de entender o porquê dessa parte tão importante de sua vida ter sido tirada. Mães que esperaram durante semanas em vão o retorno de seus filhos. Eles não só merecem como tem o direito de saber a verdade”, afirmou o governador.

Os membros da comissão não vão receber nenhum tipo de remuneração pela atuação, por ser considerada uma atividade de relevante interesse público. O texto do decreto afirma que seus membros devem ter identificação com a defesa da democracia e com o respeito aos direitos humanos.

Entre as suas principais funções estão: promover o esclarecimento de casos de tortura, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres e da autoria desses crimes, assim como os locais onde foram praticados. Contar a história daqueles que não puderam ser ouvidos nas violações de direitos humanos praticadas.

Toda e qualquer informação obtida que possa ajudar a localizar e identificar corpos e restos mortais de desaparecidos políticos será repassada para a CNV.

Assim como a comissão nacional, a Comissão Estadual da Verdade não terá caráter “jurisdicional ou persecutório”, diz o texto. Ou seja, não irá julgar e punir. Vai apenas contar as verdades que ainda estão ocultas em arquivos e na memória dos torturadores e de testemunhas.

Mas, com um prazo de duração de dois anos prorrogáveis por igual período, a comissão tem outro papel importante a desempenhar para a sociedade. Ela também vai recomendar a adoção de medidas e políticas públicas para prevenir que violações aos direitos humanos como aquelas voltem a se repetir em Santa Catarina e em todo o país.

Nome da comissão homenageia político catarinense cassado pelo AI-5 

Paulo Stuart Wright, político catarinense que dá nome à comissão estadual, nasceu em Herval d’Oeste no dia 2 de junho de 1933. Ele era irmão do pastor Jaime Wright.

Foi cassado pelo Ato Institucional Número Cinco (AI-5) e se exilou no México. Tentou retornar clandestinamento ao Brasil, mas acabou preso em São Paulo na primeira semana de setembro de 1973, data a partir da qual não se teve mais notícias de seu paradeiro.

Filho de Lathan Ephrahim Wright e de Maggie Belle Müller Wright, ambos norte-americanos, ele foi deputado da Assembleia Legislativa de Santa Catarina.

A Luta por Liberdade

Postado em 3 de setembro de 2003 por

Categoria: Artigos

Pela palavra de Cristo, revolução!

“…Diante de tanta injustiça e miséria que vemos no mundo e da opressão generalizada aos necessitados, proclamar-se inocente é inconcebível para quem buscar servir a Cristo. Querer ser inocente é aceitar as regras da injustiça, é aceitar passivamente a opressão, é não ter feito nada pelos que sofrem. Creio que é impossível ser cristão e não ser subversivo da ordem vigente, de ser fiel a quem trata de derrubar toda a autoridade, como nos fala São Paulo.”

(Trecho de carta escrita por Paulo Wright à esposa Edi, 1970)

De sólida formação religiosa e intelectual, ex-deputado estadual Paulo Wright abriu mão de tudo para lutar por liberdade

Luis Fernando Assunção

Era mais um dos tantos encontros perigosos naqueles terríveis anos de repressão. De codinome Pedro João Tim, Paulo Stuart Wright saiu de uma das casas onde se escondia alguns dias por semana no centro de São Paulo e seguiu em direção à Estação da Luz ao encontro de dois companheiros. Em seguida, entraram no trem em direção a Santo André. O amigo baixinho e o amigo estudante perceberam que estavam sendo seguidos e pediram que Paulo disfarçasse. Com a blusa de frio no braço, deixou cair no chão o jornal inseparável, deu uma olhadela pela volta e compartilhou a mesma sensação: estavam sendo seguidos. Decidiram descer do trem. O baixinho primeiro, o estudante depois e Paulo por último. Depois disso, o catarinense Paulo Stuart Wright não foi mais visto com vida. Preso, torturado e assassinado, seu corpo até hoje não foi localizado.

Paulo Stuart Wright, filho de pastor presbiteriano, nasceu em Herval, distrito de Joaçaba em 2 de junho de 1933. Sexto filho de um casal de missionários que desenvolvia um trabalho religioso na região do Vale do Rio do Peixe, Paulo cresceu rodeado por forte controle paterno contrabalaçado com uma educação sensível da mãe. Ouvia diariamente histórias que dona Bella lia, em inglês, antes de dormir. O reverendo Wright atribuía obrigações severas a todos os filhos: ajudar nas tarefas de casa, cortar lenha, cuidar da pequena roça, ajudar no fabrico do suco de uva, aprender ofício e seguir os ensinamentos da Bíblia.

Com nove anos, Paulo vivenciou a sua primeira grande perda: dois de seus irmãos morreram afogados no rio do Peixe. Conheceu então a coragem da mãe, o sofrimento resignado do pai e o medo de nadar. Passado o choque, Paulo passou a fazer visitas com os pais a residências, ouvindo seus problemas e levando conforto às famílias. Concluiu o primário e foi estudar em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Jogava basquete, vôlei e futebol. Acabou se apaixonando por uma paranaense chamada Edimar Rickli, com quem casou, mais tarde. Ele já concluíra o científico e se preparava para estudar nos Estados Unidos, costume entre os filhos de missionários da igreja Presbiteriana. A família e a mulher cultivavam as palavras de justiça e honestidade de Paulo mas não entendiam muito aquela mania de sempre visitar orfanatos e asilos, conversar e brincar com crianças sem família e idosos desamparados.

Até o pai o censurava, porque sempre doava seus próprios sapatos a quem mais precisasse. A mulher, Edi, sabia que atitudes como essa de Paulo em breve trariam problemas muito mais sérios. E assim se deu. Paulo retornou de estudos nos Estados Unidos cheio de novas idéias e velhas certezas: o seu lugar era onde pudesse ficar ombro a ombro com injustiçados e daqueles que buscassem transformação. Casou no final de 1956, em Curitiba. Com a morte da mãe, voltaram para Joaçaba, onde Paulo empregou-se de torneiro mecânico e em pouco tempo fundou o sindicato dos metalúrgicos.

Filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e aceitou, aos 25 anos de idade, candidatar-se a vereador. Não foi eleito. O casal mudou-se para São Paulo, onde Paulo ampliava suas atividades políticas e religiosas. Em 1960, a família voltou para Joaçaba, onde Paulo se candidatou a prefeito da cidade. Tinha 27 anos e uma popularidade em alta. Teve 4.276 votos contra o candidato da UDN, que fez 4.284.

A decepção o empurrou para Florianópolis, como diretor da Imprensa Oficial do Estado. Foi eleito em 1962 deputado estadual pelo Partido Social Progressista (PSP). Ligado a movimentos populares e operários, Paulo defendeu esses interesses enquanto esteve na Assembléia. Seus discursos no plenário incomodavam até mesmo a membros da mesa. Começava a pressão por sua renúncia. Os suplentes reagiam: “Ele tem ideias comunistas.” Era final de 1963 e Paulo elaborava um projeto para organizar cooperativas de pescadores no Estado.

Com o golpe, Paulo teve seu mandato cassado. Acuado, perseguido, ele deixou o País. Seguiu para Cuba, via México. Voltou ao Brasil um ano depois e começou a militar nos movimentos revolucionários. Ingressou na Ação Popular (AL), onde atuou por oito anos na clandestinidade. Chegou a ser expulso da igreja Presbiteriana – atitude revista pela igreja depois dos anos de ditadura. Nos primeiros dias de 1973, num dos anos mais sangrentos da repressão, se viu preso logo depois de descer do trem em direção a Mauá. Levado ao DOI/Codi de São Paulo, foi morto sob tortura nas primeiras 48 horas do cativeiro. Sua blusa de frio foi encontrada no chão da sala de interrogatórios. Até hoje a família carrega a angústia de não ter encontrado seus restos mortais.

Nome: Paulo Stuart Wright
Nascimento: 1933, em Herval, Joaçaba
Profissão: Sociólogo
Militância: Ação Popular (AP)
Desaparecido desde 1973

Reportagem
Jornal A Notícia/Joinville 1/07/03