Projeto revela novos detalhes da ditadura, como prisão e morte de Paulo Stuart Wright
Acervo Ditadura reúne material do coletivo Memória, Verdade e Justiça sob cuidados do Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas da Faed/Udesc
PAULO CLÓVIS SCHMITZ, FLORIANÓPOLIS
08/07/2017 13H55 – ATUALIZADO EM 07/07/2017 ÀS 21H41
Ela estava em estado tão deplorável na cela que um médico, discretamente, deixou uma cartela com 24 comprimidos para que se matasse e encurtasse aquela agonia. Apanhara muito, entrara e saíra do coma, mas queria viver – era muito jovem e ousada para se entregar, mesmo abaixo de tortura. Esta passagem, registrada em entrevista a “O Estado” em 1979, quando da volta a Santa Catarina, pode explicar a obstinação de Derlei Catarina de Luca, professora por formação, militante de causas humanísticas por vocação, para descobrir o que for possível sobre os crimes da ditadura no Brasil. O depoimento ao jornal faz parte de um amplo material doado no final de junho pelo coletivo Memória, Verdade e Justiça ao IDCH (Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas), vinculado à Faed/Udesc, em Florianópolis.
Stuart Wright ajudou Derlei a fugir do país, quando estava asilada no Chile: “devo minha vida a ele” – Marco Santiago/ND
O Acervo da Ditadura – nome geral do projeto – está disponível para consulta, porém ao primeiro contato sobrevém a vontade de espalhar o seu conteúdo (de resto, já tornado público) como forma de denúncia e de conscientização de quem não viveu os anos de chumbo e defende a volta dos militares ao poder. Não há regimes totalitários imunes à condenação histórica por seus atos, mas no caso brasileiro existem detalhes e peculiaridades que justificam a teimosia dos detratores em ir a fundo, tentar descobrir onde estão os torturadores remanescentes e desenterrar os ossos de quem desapareceu sem deixaram vestígios.
“No caso do ex-deputado Paulo Stuart Wright, descobrimos quem prendeu, quem matou e quem deu fim ao corpo”, diz Derlei de Luca, satisfeita com os resultados de seu trabalho e o de muitas outras pessoas movidas pelo mesmo objetivo. Pelas evidências do caso, ela constatou que o responsável pela morte de Wright foi o major Ubirajara Brandt Rodrigues, do Centro de Informações do Exército. Ele dirigiu toda a operação que começou com a prisão do deputado, num trem do subúrbio de São Paulo, em 1º de setembro de 1973, e terminou na “desova” num rio de Itapevi, a 30 quilômetros da capital paulista. Derlei fechou o quebra-cabeças em 2015 e só agora revela a informação a um órgão de imprensa.
Segundo o jornalista Marcelo Godoy, no livro “A casa da vovó” – que traz o depoimento de vários torturadores – quem cuidava dos interrogatórios e, posteriormente, dos assassinatos na Boate Querosene, centro clandestino de repressão em Itapevi, eram o capitão Enio Pimentel da Silva, o capitão Freddie Perdigão Pereira, o sargento Roberto Artoni, o sargento João de Sá Cavalcanti Netto, o capitão André Leite Pereira Filho.
“Poderia ter uma vida simples, como professora, mas não era esse o meu destino. Acho que faria tudo de novo.”
Derlei de Luca
A farsa desvendada
Há 40 anos desencavando informações, consultando arquivos e indo atrás de jornalistas e de familiares de presos, torturados e desaparecidos, Derlei soube que muitas vítimas da ditadura foram mortas na Boate Querosene, perto de um rio onde os corpos eram atirados, quase sempre desmembrados. No livro “A casa da vovó”, de Marcelo Godoy, o major Ubirajara Brandt admite ter desaparecido com o corpo de três opositores do regime – e Paulo Wright era um deles. Também havia uma usina de açúcar em Cambahyba, no município de Campos, no Rio de Janeiro, onde os mortos eram incinerados. Ali, em 1973, morreu outro catarinense, João Batista Rita, 25 anos, nascido em Braço do Norte. “Nesses casos, não há chance sequer de encontrar as cinzas”, lamenta a professora aposentada, comparando a prática às da Alemanha nazista.
A solução para o caso do primeiro prefeito de Balneário Camboriú, Higino João Pio, assassinado na Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Florianópolis, em 3 de março de 1969, foi outra vitória do coletivo. Após anos tendo que engolir a versão mentirosa de suicídio, a família foi informada de que Pio foi morto na cela por motivos torpes, ligados a quizilas políticas em sua região e no Estado. O sonho de Derlei, do coletivo e de todos os que desejam ver a justiça prevalecer é que o Ministério Público Federal peça a prisão dos executores e torturadores do período ditatorial que ainda estão vivos.
De professora primária a militante
O destino da jovem Derlei de Luca destoou da maioria, mas se aproximou, em termos de escolhas, de muitas trajetórias que foram tolhidas pela ditadura. Nascida em Içara, onde havia uma grande mina de carvão, ela estudou em Criciúma, cidade de forte tradição trabalhista. A família era politizada e, como professora primária, Derlei conheceu muitos alunos cujos pais foram presos após o golpe de 1964. Quando estudante, chegou a ir a um comício de João Goulart, o Jango, presidente que viria a ser deposto quando tentava implementar reformas de base. Como o mundo era pequeno ali, ela veio para Florianópolis em 1966 e cursou Pedagogia. Encontrou os diretórios acadêmicos fechados na universidade, e a primeira luta veio daí, a ponto de fazer parte do DCE, já reaberto, no ano seguinte.
Uma denúncia de corrupção na reitoria da UFSC, a repressão aos movimentos estudantis, os “congressinhos” que prepararam na surdina o grande encontro de Ibiúna, em São Paulo – tudo isso foi importante, mas ficou para trás quando ela passou a trabalhar numa fábrica de tecidos em Curitiba para aprender a lidar com a classe operária. Paulo Stuart Wright fez o mesmo quando trocou a chance de uma carreira acadêmica pela função de ajudante de torneio mecânico. Era a oportunidade de estar perto dos trabalhadores, uma obsessão para os militantes e intelectuais de esquerda naqueles anos.
Do Paraná para São Paulo foi um pulo. Só que ali, quase por acaso, foi presa pela Operação Bandeirantes porque carregava algumas publicações com conteúdo contra o regime. Confundida com outra jovem procurada pelos militares, Derlei sofreu nas mãos dos torturadores, teve uma vértebra e alguns dentes quebrados. Ficou presa durante mais de dois meses e chegou a entrar em coma, mas quando viram o erro – apesar das revistas e da passagem por Ibiúna – não tiveram coragem de devolvê-la à família, pela precária situação de saúde em que se encontrava. Foi aí que surgiu o médico com os comprimidos.
Recuperada, Derlei voltou para Santa Catarina, andou pela Bahia e Ceará, até se refugiar em Londrina (PR), cidade que considerou mais tranquila para ter o filho José Paulo. Quando o menino fez três meses, pediu a um hospital local para entregá-lo à sua mãe, em Içara, e tratou de sair do Brasil. Dois anos e meio depois, já em Cuba, depois de andar pela Argentina e pelo Chile (chegou lá no momento da deposição do presidente Salvador Allende), passou a criar o filho por conta própria. Soube da morte de Paulo Stuart Wright – espécie de guru de sua geração que a ajudou a fugir do país – quando estava asilada na embaixada do Panamá em Santiago. “Devo minha vida a ele”, declara.
Falando de tudo o que passou, Derlei diz não se arrepender de nada. “Poderia ter uma vida simples, como professora, mas não era esse o meu destino”, afirma. “Acho que faria tudo de novo”.
Onde eram mortos os ‘chineses’
Os relatos de Derlei de Luca sobre a prisão em São Paulo, entre 1969 e 1970, as torturas que lhe foram impostas e a luta de quatro décadas para localizar os corpos dos mortos e desaparecidos só são menos candentes que sua luta por identificar os responsáveis pela repressão, sobretudo nos anos do governo Médici (1969-1974). Ela foi militante da AP (Ação Popular), o mais forte movimento de oposição à ditadura, que teve em Paulo Stuart Wright um grande expoente. Na cadeia, foi submetida ao “pau de arara”, palmatória e choques dados pelo investigador da polícia civil Walter Lang, que ela redescobriu há pouco tempo pesquisando no Google.
O desaparecimento de Paulo Wright, a quem conheceu quando tinha 14 anos, foi um tema a que se dedicou desde o final da década de 70. A primeira vez que a repressão reconheceu a morte do ex-deputado catarinense foi no livro “A casa da vovó”, de Marcelo Godoy, onde há menções aos codinomes Agente Alemão (Walter Lang) e Agente Neusa (Beatriz Martins) como participantes da operação de ocultação do corpo de Wright. O centro de repressão clandestino chamado de Boate Querosene, na Grande São Paulo, eram para onde iam os presos que tinham estado na China – caso de Wright, listado entre os “chineses” porque havia visitado o país oriental em razão de sua militância.
O agente Alemão fazia parte da equipe Curia, do DOI-Codi paulista, que seguiu e prendeu Paulo Wright no trem e foi quem, muitos anos antes, girara a máquina de choques nas torturas a Derlei na prisão. Quem controlava a Boate Querosene era o major Ubirajara Brandt Rodrigues, conhecido então como Doutor César. Ele também cooptou alguns “cachorros” (traidores) da Ação Popular na tentativa de liquidar esse movimento de luta contra o regime vigente.
Fonte: Notícias do Dia, 08/07/2017
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Tão Americano quanto João da Silva
Documentos mostram diferenças de tratamento entre o norte-americano Fred Morris e Paulo Stuart Wright, que possuía dupla nacionalidade, ambos presos e torturados durante a ditadura brasileira
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Olhar o passado. Entender o futuro
Em abril de 1964, no entanto, teve o mandato cassado. Acusação: quebra de decoro parlamentar. Motivo: não usar terno e gravata nas seções da Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Na verdade, sua cassação foi encomendada pelo CENIMAR (Centro de Informações da Marinha) e Paulo Wright era sabedor do risco de vida que estava correndo. Exilou-se por um tempo e voltou para o Brasil na clandestinidade. Não abandonou sua missão, prosseguindo na atuação como dirigente da AP (Ação Popular). No dia 03 setembro de 1973, quando foi visto pela última vez, num trem em São Paulo. O que ocorreu deste dia em diante, ninguém explicou até hoje.
Além desse breve relato, sua história é tema de vários livros, um filme e um documentário, que será lançado nos próximos meses em Florianópolis. Porém, lamentavelmente, ele é ainda pouco lembrado nos capítulos da história de Santa Catarina.
Algumas pessoas que conviveram com Paulo Stuart Wright também fazem relatos muito interessantes da época, como dona Eliane Marinho, que foi sua secretária, ou o advogado Murilo Krüger, colega de militância pastoral.
Essas pessoas relatam principalmente o lado humano de Paulo Stuart Wright e, junto com o lado humano, a personalidade, o zelo pela ética e a moralidade pública, maior patrimônio de um cidadão, de uma cidadã.
Diante desse exemplo posso fazer reflexões ligadas ao momento que vivemos:
A história política brasileira é marcada por injustiças, nesse caso ser justo era considerado crime;
As verdades geralmente só aparecem muito tempo depois que as pessoas se vão;
Como acreditar nas instituições sem acreditar nas pessoas? E como acreditar nas pessoas quando estamos diante de versões completamente antagônicas?
Frente ao quadro de insegurança e à dúvida, olhar para trás, buscar bons exemplos, pode fazer a diferença. Pode nos fazer acreditar que nem tudo está perdido e que um dia haveremos de entender qual dos lados estava com a razão.
José Roberto Paludo, historiador e ex-Presidente do Instituto Paulo Stuart Wright
Discurso Sr. Jaime Wright – Alesc 09-12-1992
Excelentíssimo Senhor Deputado Federal Nilmário Miranda, Presidente da Comissão Especial Externa para os desaparecidos políticos;
…. cumprimentos aos demais presentes….
No mês passado, sobre o patrocínio da Organização das Nações Unidas e organizado pela Comissão Internacional de Juristas, realizou-se em Genebra o Encontro Internacional sobre a Impunidade em violações Graves de Direitos Humanos.
A questão da validade das leis de anistia foi exposta com muita precisão pelo jurista Yogesh Toagy, da Escola de Estudos Internacionais Jawaharlal Nehru, da Índia. Ele levantou tres questões:
Primeira, quem fez a lei de anistia? Se foi o próprio regime opressor ou se foi o sucessor eleito democraticamente. A resposta a essa ṕergunta dirá da validade ou não de uma lei de anistia.
Uma segunda questão. Qual o alcance da lei de anistia em questão? Se concede ou não anistia absoluta aos violadores, então sua invalidade fala por si própria. Se a resposta for sim, ela concede anistia absoluta aos violadores. Por definição , segundo o jurista, essa lei estaria invalidada.
Uma terceira questão foi levantada: que os casos de desaparecimentos e violações não devem permanecer no mistério. Por quê? Porque querer ocultar a verdade sobre o desaparecimento de presos políticos, e no nosso caso de presos políticos brasileiros, em primeiro lugar é pretender negar a História, em segundo lugar representa recusar a supremacia do direito e em terceiro lugar representa impedir a renovação da imagem de instituições nacionais que foram desmoralizadas por atos indignos.
A palavra anistia vem do grego “amnestiae”, da mesma raiz de amnésia, que significa perda total ou parcial da memória.
Mas anistia não é amnésia, como querem os militares. O Estado, ao concedê-la, pretende esquecer o passado. Mas como esperar que pais, irmãos, esposa, esposos e filhos dos mortos e desaparecidos esqueçam seus entes queridos?
Na História jamais de apaga a memória das vítimas. Foi assim no período pós-cristianismo primitivo, quando surgiram os martirológicos no Império Romano, a lista daqueles que haviam sido sacrificados pelos romanos.
Nós, hoje, conhecemos mais sobre as mazelas da escravidão do que aqueles que conviveram com a escravidão nesses trezentos e vinte anos. Hoje também se conhece mais sobre as brutalidades do nazismo do que aqueles que viveram há quarenta e se anos.
Não vivemos mais numa época em que a verdade era filha da autoridade. Ainda que todos se calem, diz Jesus, as pedras clamarão, porque debaixo delas há mortos que continuam governando os vivos e exigem, no mínimo, o sagrado direito de uma sepultura.
O argumento de que houve abuso de ambos os lados é uma ofensa à inteligência brasileira. De um lado havia, sim, jovens que, cheios de idealismo, resistiam à ditadura e do outro o Estado repressor, agentes treinados no Panamá e nos Estados Unidos da América; os DOI-DODIs, os porões do DOPS, os equipamentos de tortura importados da Inglaterra, as instalações clandestinas (e segundo o Projeto Brasil Nunca Mais, havia duzentas e cinquenta e duas instalações clandestinas de tortura no nosso território). Tudo pago pelo bolso do contribuinte.
Cabe ao Estado punir quem transgride a lei. Jamais transgredir a lei que ele tem a obrigação de defender. E não há poder nesse mundo que, para as vítimas, transforme a anistia em amnésia.
Por todos estes motivos, respeitando a Constituição e os direito fundamental dos familiares dos mortos e desaparecidos de conhecerem o destino dado às vítimas é indispensável a imediata abertura e liberação de todos os arquivos civis e militares.
Ocultar a verdade histórica é, em primeiro lugar, desonesto, em segundo lugar não pacifica os espíritos, em terceiro lugar não ajuda a imagem do nosso País e em quarto lugar cai a suspeita de cumplicidade sobre os atuais dirigentes da nossa Nação.
fonte: taquigrafia da Alesc – 09/12/92
Esclarecimento sobre morte de Paulo Stuart Wright e indenização não apagam dor da família
Os mistérios em torno da prisão, morte e ocultação do corpo do ex-deputado Paulo Stuart Wright, assassinado em 1973 em Itapevi, na Grande São Paulo, já foram desfeitos. Há duas décadas, a família foi indenizada, com base na lei nº 9.140, de 4 de dezembro de 1995, criada para ressarcir monetariamente as perdas humanas provocadas pelas torturas e mortes durante a ditadura. Contudo, nada há que remova ou aplaque o sofrimento decorrente do crime, um dos muitos praticados pelos governos militares no Brasil. “Foi difícil desde a cassação de meu pai, passando pelos anos de clandestinidade, quando os encontros eram muitos esparsos e perigosos”, conta o filho João Paulo, 54 anos, hoje morando em Curitiba. “A família foi se esfacelando, minha mãe adoeceu e morreu, depois perdi minha irmã. Ele nos fez muita falta”.
No mês passado, um vasto material batizado com nome de Acervo da Ditadura foi doado pelo Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça ao IDCH (Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas), da Faed/Udesc, em Florianópolis. O caso Paulo Wright é o que reúne o maior número de pastas com documentos pessoais, reportagens, fotografias, artigos e correspondências, porque ele é o mais conhecido dos dez catarinenses mortos e desaparecidos durante o período. Além disso, era irmão do pastor Jaime Wright, militante dos direitos humanos que atuou ao lado do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, da arquidiocese de São Paulo, no projeto Brasil: Nuca Mais.
Em 1º de setembro de 1973, quando estava num trem urbano em São Paulo com outros companheiros, Paulo Wright foi seguido por agentes comandados pelo major Ubirajara Brandt Rodrigues, do Centro de Informações do Exército. Acostumados a esse tipo de situação, os militantes perceberam o perigo e se separaram, mas Wright acabou preso e nunca mais foi visto. “Eles iam se encontrar com outro companheiro, mas ele fora preso no dia anterior e deu informações à Operação Bandeirantes”, conta a professora aposentada Derlei Catarina de Luca, que conhecia Wright desde os 14 anos, quando morava em Içara, no Sul do Estado. “Ele me ajudou a sair do país e salvou minha vida”, diz Derlei, que havia sido presa e torturada em 1969 em São Paulo.
Assassinato na Boate Querosene, em 1973
Após incansável trabalho de mais de 40 anos para explicar o que aconteceu, Derlei de Luca descobriu que Paulo Wright foi morto na Boate Querosene, em Itapevi (SP), nos primeiros dias de setembro de 1973, por uma equipe da qual faziam parte o capitão Enio Pimentel da Silva, o capitão Freddie Perdigão Pereira, o sargento Roberto Artoni, o sargento João de Sá Cavalcanti Netto e o capitão André Leite Pereira Filho. O agente Walter Lang, conhecido como Alemão, estava na equipe que sequestrou Wright no trem e foi quem, segundo Derlei, deu sumiço no corpo, provavelmente decapitado e jogado num rio próximo à antiga boate usada para liquidar os inimigos do regime.
Paulo Wright nasceu em Joaçaba, no Vale do Rio do Peixe, em 1933, filho de missionários presbiterianos originários dos Estados Unidos. Formou-se em sociologia no estado americano de Askansas e retornou ao Brasil em 1956 para se casar com Edimar Rickli (com quem teve os filhos Charles, Leila e João Paulo) e trabalhar junto aos movimentos sociais e sindicatos de trabalhadores, em São Paulo. Com a morte da mãe, retornou a Santa Catarina para auxiliar o pai em suas atividades missionárias, mas se envolveu com os metalúrgicos de Joaçaba, onde se candidatou a prefeito pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), perdendo e eleição por apenas nove votos.
Em 1958, convidado pelo governador Celso Ramos, assumiu a direção da Imprensa Oficial do Estado e começou a organizar uma federação de cooperativas de pesca nos municípios do litoral. Elegeu-se deputado estadual em 1963 pelo PSP (Partido Social Progressista), mas sua atuação rendeu uma denúncia de subversão e, por pressão dos militares, ele foi cassado em 9 de maio do ano seguinte, sob alegação de falta de decoro parlamentar – com votos de parlamentares do próprio partido. Andou pelo México, Cuba e China e ingressou na AP (Ação Popular), organização extremamente organizada que educava os militantes. No episódio da cassação do mandato, a Assembleia Legislativa curvou-se à pressão do regime, como ocorreu em outros Estados do país.
João Paulo Wright, técnico em eletrônica, filho de Paulo Stuart Wright
“O sofrimento nunca termina, está no dia a dia”
Mesmo por telefone, dá para perceber a emoção com que João Paulo Wright, 54, fala do pai morto na ditadura. Técnico em eletrônica, ele mora em Curitiba, para onde a família se mudou após o desaparecimento de Paulo Stuart Wright, em 1973. Ele diz que “o sofrimento nunca termina, está no dia a dia”, e que o fato de não haver os restos mortais para enterrar é um trauma a mais, como sempre acontece nessas situações. Nascido um ano antes do golpe de 1964, João Paulo fala, nesta entrevista, sobre como a perda do marido e pai esfacelou a família. “Uma vez um repórter me perguntou como eu reagiria se meu pai aparecesse na porta de casa”, conta. “Por um momento, tive a sensação de que aquilo era possível”.
Como era a relação da família com Paulo Wright, que depois de cassado passou anos como clandestino dentro e fora do Brasil, fugindo de seus perseguidores?
Nossos encontros eram espaçados e às vezes ele marcava e não aparecia, por questão de segurança. Quando eu tinha dez anos, meu pai foi sequestrado em São Paulo e nunca mais foi visto. Foi dramático, angustiante para mim e minha irmã Leila. Professora primária, nossa mãe nos reuniu uma noite, na cama, e disse: “Acho que o pai de vocês morreu”. A mãe adoeceu e depois eu perdi também a irmã – elas estão no mesmo túmulo. Até 1975, nós também ficamos na clandestinidade.
Como foi que trabalharam com a perda e com a ausência dele?
Nossa vida seria diferente se ele estivesse presente, porque os pais influenciam nas decisões dos filhos. Meu pai fez muita falta, especialmente para minha mãe e minha irmã. A ditadura provocou um desmonte familiar. Tivemos a proteção da mãe e nos abrigamos numa chácara perto de Curitiba. Era um paraíso natural, com escola próxima. Tivemos uma boa formação, mas o sofrimento voltou com a abertura política, quando entendemos melhor o que aconteceu com o país.
Você ainda alimenta a esperança de encontrar os restos mortais de seu pai?
Os familiares dos desaparecidos têm ido ao cemitério de Perus, em São Paulo, onde ainda há muitas ossadas que não foram identificadas. Muitas estão sem as mãos e cabeça, justamente para dificultar a identificação. Muitos corpos foram jogados no mar, em rios, em fornos. Existe pouca esperança de encontrar qualquer coisa, pela visibilidade que ele tinha. Era uma liderança muito carismática, com capacidade de mobilização popular e discurso forte. O incrível é que muitas pessoas ainda não acreditam que tudo aquilo aconteceu e que o regime militar torturou e matou tanta gente.
A família foi indenizada. Isso amenizou um pouco a dor da família?
Quando saiu a indenização, há cerca de 20 anos, nós aceitamos, porque tínhamos um filho pequeno. Sei que meu tio Jaime Wright não iria aceitar. Hoje eu também não aceitaria, foi um erro, mas eu não tinha maturidade na época. Não existe possibilidade de reparação financeira para um crime assim. Admito que foi um momento de fragilidade e imaturidade – o ideal era não ter aceito, até porque meu pai não era apegado a bens materiais.
Você sente que tem alguma coisa a fazer pela história de seu pai?
Aos 54 anos, ainda tenho metas de vida. Quero voltar a fazer a pé o caminho de meu pai pelo litoral catarinense, onde ele criou várias cooperativas de pesca. Ele e minha mãe foram dois missionários que vieram dos Estados Unidos e da Europa para dar melhores condições de vida ao povo. Viver com sua falta é um aprendizado diário. Lembro que minha irmã Leila, ainda criança, ia com ele nos comícios em Florianópolis. Gostaria de fazer um velório para ele, com todas as cerimônias de praxe. No mundo inteiro é assim: até nas guerras se respeita o ritual, os inimigos param os combates para o resgate dos mortos.
Como você vê a situação do país, neste momento?
Estou angustiado. Quando José Serra lançou seu livro eu fui lá, achei que ele seria uma saída, porque foi exilado, mas no dia seguinte apareceu a notícia dos 23 milhões de dólares depositados na conta dele. Não posso colocar a história do meu pai nesse meio. Os velhos militantes, como Serra e Fernando Henrique Cardoso, mudaram de lado. Hoje, a empresa onde trabalho tem 230 funcionários, mas já teve 700. O país tem muita bandalheira, concentração de renda, a cidadania pisoteada e uma crise de lideranças. Se estivesse vivo, meu pai teria 85 anos e certamente sofreria muito ao ver o quadro atual. Sempre me pergunto como vamos reconstruir o país outra vez.