Olhar o passado. Entender o futuro

Postado em 3 de julho de 2023 por

Categoria: Artigos

Em abril de 1964, no entanto, teve o mandato cassado. Acusação: quebra de decoro parlamentar. Motivo: não usar terno e gravata nas seções da Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Na verdade, sua cassação foi encomendada pelo CENIMAR (Centro de Informações da Marinha) e Paulo Wright era sabedor do risco de vida que estava correndo. Exilou-se por um tempo e voltou para o Brasil na clandestinidade. Não abandonou sua missão, prosseguindo na atuação como dirigente da AP (Ação Popular). No dia 03 setembro de 1973, quando foi visto pela última vez, num trem em São Paulo. O que ocorreu deste dia em diante, ninguém explicou até hoje.

Além desse breve relato, sua história é tema de vários livros, um filme e um documentário, que será lançado nos próximos meses em Florianópolis. Porém, lamentavelmente, ele é ainda pouco lembrado nos capítulos da história de Santa Catarina.

Algumas pessoas que conviveram com Paulo Stuart Wright também fazem relatos muito interessantes da época, como dona Eliane Marinho, que foi sua secretária, ou o advogado Murilo Krüger, colega de militância pastoral.
Essas pessoas relatam principalmente o lado humano de Paulo Stuart Wright e, junto com o lado humano, a personalidade, o zelo pela ética e a moralidade pública, maior patrimônio de um cidadão, de uma cidadã.

Diante desse exemplo posso fazer reflexões ligadas ao momento que vivemos:

A história política brasileira é marcada por injustiças, nesse caso ser justo era considerado crime;

As verdades geralmente só aparecem muito tempo depois que as pessoas se vão;

Como acreditar nas instituições sem acreditar nas pessoas? E como acreditar nas pessoas quando estamos diante de versões completamente antagônicas?

Frente ao quadro de insegurança e à dúvida, olhar para trás, buscar bons exemplos, pode fazer a diferença. Pode nos fazer acreditar que nem tudo está perdido e que um dia haveremos de entender qual dos lados estava com a razão.
 

José Roberto Paludo, historiador e ex-Presidente do Instituto Paulo Stuart Wright

O que fica dele é o espírito público e o desapego

Postado em 3 de julho de 2023 por

Categoria: Notícias

Curitiba – João Paulo Wright, analista de sistemas, 40 anos, olha para o nada para definir a personalidade do pai: persistente e idealista. Casado, pai de duas filhas, ele ainda carrega na família as marcas da intolerância. Por muitos anos foi chamado na rua de “filho do terrorista” e até seus filhos acabaram discriminados pela atuação política do avô. João Paulo era pequeno quando o pai vivia na clandestinidade, mas lembra com segurança de alguns momentos de visitas escondidas à casa da mãe, em Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba. “Os encontros eram sempre tensos, rápidos, na casa de amigos ou em lugares desertos”, recorda.

João Paulo ainda era uma criança. Mas ouvia atento diálogos entre o pai e a mãe. Como o travado em uma das visitas quando Paulo relatava a morte de uma general da ditadura. “Pensava: mas o que meu pai quer com essa luta? Não entendia sua vontade de abrir mão de tudo em busca de seus ideais”, conta João Paulo, que viu o pai pela última vez aos oito anos de idade. “Uma cena que ficou na minha cabeça foi um encontro entre o pai e um sindicalista de Joinville, em um parque de Curitiba. O sindicalista tinha uma adoração pelo pai e chegou no local de guarda-chuva, apesar do sol. Era para não ser reconhecido”, recorda.

As marcas da militância do pai estão em toda a casa onde mora, num bairro de classe média de Curitiba. No álbum de fotografia, no nome do filho mais novo – Paul Stuart Wright -, na educação dos outros filhos, Francis e Bianca, e até no velho piano que enfeita a sala e que foi dado por Paulo a Edi como presente de casamento. Mas o que mais ficou foi o preconceito. “Minha mãe sempre disse para a gente esconder a condição do pai. A questão de colocar medo nas pessoas, naquela época, era presente”, diz.

O desapego do pai às questões materiais e sua força em lutar contra as injustiças norteou sua educação e a dos filhos. “Ele tinha uma formação intelectual muito sólida, um espírito público e desapego. Não podia ver ninguém na pior que corria para ajudar”, garante. Paulo jamais utilizou o salário de deputado estadual para despesas em casa. “Ele achava isso imoral”, conta João Paulo. “A gente sofreu e sofre muito com isso até hoje. Foi uma grande perda para o País e só agora isso começa a ser divulgado”, conclui João Paulo que, ao contrário do pai, não seguiu a carreira política. (Luis Fernando Assunção)

Santa Catarina instala Comissão da Verdade, Memória e Justiça

Postado em 3 de julho de 2023 por

Categoria: Notícias

Com a missão de colher depoimentos, informações e documentos sobre jornalistas que foram vítimas da ditadura militar no estado, o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (SJSC) lançou oficialmente a Comissão da Verdade, Memória e Justiça durante audiência pública realizada na noite do dia 5/12, no Plenarinho Deputado Paulo Stuart Wright da Assembleia Legislativa.

Segundo o coordenador do projeto “Direito à Memória e à Verdade”, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Gilney Viana, a missão assumida por comissões como a dos jornalistas catarinenses é uma das tarefas mais urgentes do Brasil.

Gilney Viana destaca que o objetivo da Comissão é esclarecer os crimes da ditadura e de todos os danos causados à sociedade brasileira. “O tema não interessa apenas a alguns familiares e amigos de presos, desaparecidos e assassinados, interessa a toda a sociedade, pois eles mataram o sonho de uma geração, com resquícios presentes ainda hoje”, disse. “Os jornalistas, com relatos consistentes, podem ajudar a desmascarar a ditadura. Se a pressão social existir, vamos desvendar muitos mistérios”, completou o ex-preso político no período da ditadura militar.

Na opinião do jornalista e escritor Paulo Markun, autor do livro “Meu Querido Vlado – a história de Vladimir Herzog e do sonho de uma geração”, a comissão catarinense deve pesquisar fatos, episódios e personagens locais e disponibilizar o resultado do trabalho ao público, de forma transparente e de fácil compreensão. “A questão do resgate da história é importante, demanda trabalho e esforço, e por isso a comissão pode colaborar. É uma oportunidade de descoberta, de esclarecimento, e, eventualmente, de punição”.

Markun salientou que o trabalho deve ser orientado pelo rigor da pesquisa e alertou que na base de dados disponível há muitas informações distorcidas ou mentirosas. Outro ponto destacado pelo jornalista é o valor da iniciativa. “Se ficarmos somente na questão de resgate da memória, já estaremos dando um grande passo para que a história não se repita”, falou.

Comissão da Verdade, Memória e Justiça

A criação da comissão catarinense é resultado de um movimento encabeçado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Os resultados dos levantamentos feitos em Santa Catarina e em outros estados serão encaminhados à Comissão Nacional Memória, Verdade e Justiça dos Jornalistas, lançada pela Fenaj em novembro de 2012.

Esta comissão fará o compilamento das informações recebidas e enviará um relatório à Comissão Nacional da Verdade, criada pela Lei 12.528/2011 e instituída pelo governo federal em maio deste ano com o objetivo de apurar as violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988.

De acordo com o presidente do SJSC, Valmor Fritsche, o trabalho da comissão será iniciado imediatamente e seguirá até o dia 31 de março. “É uma satisfação poder dar essa contribuição em respeito à memória de tantas pessoas perseguidas, torturadas, assassinadas nesse período”, frisou.

A comissão catarinense é composta pelos jornalistas Celso Martins, Leonel Camasão, Paulo Lehmkuhl Vieira, Elaine Borges e pelo professor e advogado Prudente José Silveira Mello, assessor jurídico do sindicato e conselheiro da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

Mello enfatizou que o processo deve ser pautado no compromisso de garantir a reparação, buscar a memória e trazer a verdade à tona, identificando os criminosos da época e os colocando no rol de culpados. “Devemos lembrar que foram interrompidos projetos de vida e mais, foi interrompido um projeto de país, com consequências sentidas até hoje”.

A jornalista Elaine Borges ressaltou em sua fala a responsabilidade de realizar esse trabalho. “É uma missão muito séria. Nesse primeiro momento, há uma lista com cerca de 400 pessoas das quais devemos levantar informações, pesquisar a respeito”.

A instalação da comissão é uma promoção do sindicato em parceria com a Comissão de Direitos e Garantias Fundamentais, de Amparo à Família e à Mulher do Parlamento catarinense, Cesusc e Instituto Paulo Stuart Wright. A audiência pública foi proposta pelas deputadas Luciane Carminatti (PT) e Angela Albino (PCdoB).

Proposta de Comissão Estadual da Verdade

Na ocasião, foi entregue a Gilney Viana uma cópia do Projeto de Resolução 4/2012, de autoria da deputada Angela Albino, que tramita no Parlamento catarinense.

A proposição trata da criação da Comissão da Verdade do Estado de Santa Catarina no âmbito da Assembleia Legislativa para colaborar com a Comissão Nacional da Verdade na apuração de graves violações dos direitos humanos ocorridas no estado ou praticadas por agentes públicos estaduais no período de 1964 até 1985.

(Texto: Ludmilla Gadotti/Alesc Foto: Solon Soares/Alesc)

Discurso Sr. Jaime Wright – Alesc 09-12-1992

Postado em 3 de julho de 2023 por

Categoria: Artigos

Excelentíssimo Senhor Deputado Federal Nilmário Miranda, Presidente da Comissão Especial Externa para os desaparecidos políticos;

…. cumprimentos aos demais presentes….

No mês passado, sobre o patrocínio da Organização das Nações Unidas e organizado pela Comissão Internacional de Juristas, realizou-se em Genebra o Encontro Internacional sobre a Impunidade em violações Graves de Direitos Humanos.

A questão da validade das leis de anistia foi exposta com muita precisão pelo jurista Yogesh Toagy, da Escola de Estudos Internacionais Jawaharlal Nehru, da Índia. Ele levantou tres questões:

Primeira, quem fez a lei de anistia? Se foi o próprio regime opressor ou se foi o sucessor eleito democraticamente. A resposta a essa ṕergunta dirá da validade ou não de uma lei de anistia.

Uma segunda questão. Qual o alcance da lei de anistia em questão? Se concede ou não anistia absoluta aos violadores, então sua invalidade fala por si própria. Se a resposta for sim, ela concede anistia absoluta aos violadores. Por definição , segundo o jurista, essa lei estaria invalidada.

Uma terceira questão foi levantada: que os casos de desaparecimentos e violações não devem permanecer no mistério. Por quê? Porque querer ocultar a verdade sobre o desaparecimento de presos políticos, e no nosso caso de presos políticos brasileiros, em primeiro lugar é pretender negar a História, em segundo lugar representa recusar a supremacia do direito e em terceiro lugar representa impedir a renovação da imagem de instituições nacionais que foram desmoralizadas por atos indignos.

A palavra anistia vem do grego “amnestiae”, da mesma raiz de amnésia, que significa perda total ou parcial da memória.

Mas anistia não é amnésia, como querem os militares. O Estado, ao concedê-la, pretende esquecer o passado. Mas como esperar que pais, irmãos, esposa, esposos e filhos dos mortos e desaparecidos esqueçam seus entes queridos?

Na História jamais de apaga a memória das vítimas. Foi assim no período pós-cristianismo primitivo, quando surgiram os martirológicos no Império Romano, a lista daqueles que haviam sido sacrificados pelos romanos.

Nós, hoje, conhecemos mais sobre as mazelas da escravidão do que aqueles que conviveram com a escravidão nesses trezentos e vinte anos. Hoje também se conhece mais sobre as brutalidades do nazismo do que aqueles que viveram há quarenta e se anos.

Não vivemos mais numa época em que a verdade era filha da autoridade. Ainda que todos se calem, diz Jesus, as pedras clamarão, porque debaixo delas há mortos que continuam governando os vivos e exigem, no mínimo, o sagrado direito de uma sepultura.

O argumento de que houve abuso de ambos os lados é uma ofensa à inteligência brasileira. De um lado havia, sim, jovens que, cheios de idealismo, resistiam à ditadura e do outro o Estado repressor, agentes treinados no Panamá e nos Estados Unidos da América; os DOI-DODIs, os porões do DOPS, os equipamentos de tortura importados da Inglaterra, as instalações clandestinas (e segundo o Projeto Brasil Nunca Mais, havia duzentas e cinquenta e duas instalações clandestinas de tortura no nosso território). Tudo pago pelo bolso do contribuinte.

Cabe ao Estado punir quem transgride a lei. Jamais transgredir a lei que ele tem a obrigação de defender. E não há poder nesse mundo que, para as vítimas, transforme a anistia em amnésia.

Por todos estes motivos, respeitando a Constituição e os direito fundamental dos familiares dos mortos e desaparecidos de conhecerem o destino dado às vítimas é indispensável a imediata abertura e liberação de todos os arquivos civis e militares.

Ocultar a verdade histórica é, em primeiro lugar, desonesto, em segundo lugar não pacifica os espíritos, em terceiro lugar não ajuda a imagem do nosso País e em quarto lugar cai a suspeita de cumplicidade sobre os atuais dirigentes da nossa Nação.

fonte: taquigrafia da Alesc – 09/12/92

Comissão da Verdade de SP faz audiência sobre Virgílio Gomes da Silva

Postado em 3 de julho de 2023 por

Categoria: Notícias

Militante da ALN (Ação Libertadora Nacional), Virgílio Gomes foi preso no dia 29 de setembro de 1969, em São Paulo, por agentes da Oban (Operação Bandeirantes), e levado para o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna).

A viúva de Virgílio, Ilda Martins da Silva, falou sobre tudo que passou nas mãos dos agentes da ditadura. “Virgílio foi assassinado no dia 30 de setembro de 1969”, disse. Nesse mesmo dia, segundo Ilda, ela e três de seus quatro filhos: Vlademir, Virgílio e Isabel foram também presos. No DOI-Codi, foi interrogada e separada deles, declarou.

“Eu não queria me separar deles de jeito nenhum. Veio uma freira, pegou-os e os levou para o Dops. Eles ficaram dois dias no Dops e foram levados para um Juizado de Menores, onde ficaram por dois meses. A Isabel, que só tinha quatro meses, foi hospitalizada e quase morreu. Eu fiquei presa por nove meses e estive incomunicável, não podia ver meus filhos ou saber deles. E eu não tinha participação em nada”, disse.

Quarenta e três anos depois a família ainda espera que os culpados pela morte de Virgílio sejam punidos e que a comissão ajude nessa tarefa. “Espero que sejam intimados a depor [na comissão] não só as testemunhas que o viram ser torturado e morto, mas também os que cometeram o ato”, disse Virgílio Gomes da Silva Filho. “Tem um laudo, descoberto em 2004, no qual está registrado quem era a pessoa, as condições em que o corpo se encontrava, com todas as características de tortura, com ossos quebrados e com todos os órgãos dele estourados. E dizia que foi encaminhado para o Cemitério de Vila Formosa”, disse Virgílio Gomes da Silva Filho.

“Eles [da comissão] têm a condição de pelo menos tentar, a obrigação moral de pelo menos tentar. Tem coisa que, pelo tempo que passou, pode ser que não se resgate com fidelidade ou com a riqueza necessária que precisaria ter. Mas o mínimo que se tem é de valor histórico, e temos obrigação de resgatar isso”, acrescentou Silva Filho.

Na reunião desta segunda-feira, após ouvir os parentes de Virgilio Gomes, a comissão propôs fazer audiências para investigar as valas clandestinas do Cemitério de Vila Formosa, na zona leste da capital paulista, onde várias ossadas foram encontradas, mas não identificadas. Há uma suspeita, por exemplo, de que os restos mortais de Virgílio Gomes da Silva, até hoje desaparecido, seja identificado entre essas ossadas.

“O foco é a localização dos mortos e desaparecidos é saber quem os matou e os fez desaparecer”, disse o deputado Adriano Diogo, presidente da comissão, em entrevista à Agência Brasil. Segundo ele, a comissão tem a intenção de pedir agilidade no processo de identificação dessas ossadas e de localização de outros locais onde muitos corpos tenham sido enterrados.

O parlamentar declarou ainda que, no âmbito da comissão, não é possível punir os culpados pelas torturas e mortes que foram cometidas durante a ditadura militar. Por isso, ressaltou que o trabalho da comissão paulista será o de gerar um movimento nacional de opinião pública, tornando públicos os fatos que ocorreram durante o regime. “A maior punição que estamos tentando infringir a essas pessoas [que cometeram esses atos] é a publicização desses fatos”, disse. “O caso Virgílio Gomes é um dos mais bem documentados. Todos os assassinos estão identificados, há o laudo da morte”, o que falta é a identificação do corpo e a punição dos responsáveis, completou Diogo.

No decorrer do ano, a comissão, que vai analisar 154 processos, também pretende promover uma audiência para ouvir depoimentos de pessoas que, quando crianças, foram sequestradas ou torturadas durante a ditadura militar. A audiência de hoje foi a 11ª deste ano.

O caso do desaparecimento e morte de Virgílio Gomes da Silva durante a ditadura militar está sendo investigado pela Polícia Federal. A Agência Brasil procurou o órgão para tentar obter mais informações sobre o inquérito, mas até a publicação da matéria não obteve retorno à solicitação.

Acessar fonte