A Luta por Liberdade

Postado em 3 de setembro de 2003 por

Categoria: Artigos

Pela palavra de Cristo, revolução!

“…Diante de tanta injustiça e miséria que vemos no mundo e da opressão generalizada aos necessitados, proclamar-se inocente é inconcebível para quem buscar servir a Cristo. Querer ser inocente é aceitar as regras da injustiça, é aceitar passivamente a opressão, é não ter feito nada pelos que sofrem. Creio que é impossível ser cristão e não ser subversivo da ordem vigente, de ser fiel a quem trata de derrubar toda a autoridade, como nos fala São Paulo.”

(Trecho de carta escrita por Paulo Wright à esposa Edi, 1970)

De sólida formação religiosa e intelectual, ex-deputado estadual Paulo Wright abriu mão de tudo para lutar por liberdade

Luis Fernando Assunção

Era mais um dos tantos encontros perigosos naqueles terríveis anos de repressão. De codinome Pedro João Tim, Paulo Stuart Wright saiu de uma das casas onde se escondia alguns dias por semana no centro de São Paulo e seguiu em direção à Estação da Luz ao encontro de dois companheiros. Em seguida, entraram no trem em direção a Santo André. O amigo baixinho e o amigo estudante perceberam que estavam sendo seguidos e pediram que Paulo disfarçasse. Com a blusa de frio no braço, deixou cair no chão o jornal inseparável, deu uma olhadela pela volta e compartilhou a mesma sensação: estavam sendo seguidos. Decidiram descer do trem. O baixinho primeiro, o estudante depois e Paulo por último. Depois disso, o catarinense Paulo Stuart Wright não foi mais visto com vida. Preso, torturado e assassinado, seu corpo até hoje não foi localizado.

Paulo Stuart Wright, filho de pastor presbiteriano, nasceu em Herval, distrito de Joaçaba em 2 de junho de 1933. Sexto filho de um casal de missionários que desenvolvia um trabalho religioso na região do Vale do Rio do Peixe, Paulo cresceu rodeado por forte controle paterno contrabalaçado com uma educação sensível da mãe. Ouvia diariamente histórias que dona Bella lia, em inglês, antes de dormir. O reverendo Wright atribuía obrigações severas a todos os filhos: ajudar nas tarefas de casa, cortar lenha, cuidar da pequena roça, ajudar no fabrico do suco de uva, aprender ofício e seguir os ensinamentos da Bíblia.

Com nove anos, Paulo vivenciou a sua primeira grande perda: dois de seus irmãos morreram afogados no rio do Peixe. Conheceu então a coragem da mãe, o sofrimento resignado do pai e o medo de nadar. Passado o choque, Paulo passou a fazer visitas com os pais a residências, ouvindo seus problemas e levando conforto às famílias. Concluiu o primário e foi estudar em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Jogava basquete, vôlei e futebol. Acabou se apaixonando por uma paranaense chamada Edimar Rickli, com quem casou, mais tarde. Ele já concluíra o científico e se preparava para estudar nos Estados Unidos, costume entre os filhos de missionários da igreja Presbiteriana. A família e a mulher cultivavam as palavras de justiça e honestidade de Paulo mas não entendiam muito aquela mania de sempre visitar orfanatos e asilos, conversar e brincar com crianças sem família e idosos desamparados.

Até o pai o censurava, porque sempre doava seus próprios sapatos a quem mais precisasse. A mulher, Edi, sabia que atitudes como essa de Paulo em breve trariam problemas muito mais sérios. E assim se deu. Paulo retornou de estudos nos Estados Unidos cheio de novas idéias e velhas certezas: o seu lugar era onde pudesse ficar ombro a ombro com injustiçados e daqueles que buscassem transformação. Casou no final de 1956, em Curitiba. Com a morte da mãe, voltaram para Joaçaba, onde Paulo empregou-se de torneiro mecânico e em pouco tempo fundou o sindicato dos metalúrgicos.

Filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e aceitou, aos 25 anos de idade, candidatar-se a vereador. Não foi eleito. O casal mudou-se para São Paulo, onde Paulo ampliava suas atividades políticas e religiosas. Em 1960, a família voltou para Joaçaba, onde Paulo se candidatou a prefeito da cidade. Tinha 27 anos e uma popularidade em alta. Teve 4.276 votos contra o candidato da UDN, que fez 4.284.

A decepção o empurrou para Florianópolis, como diretor da Imprensa Oficial do Estado. Foi eleito em 1962 deputado estadual pelo Partido Social Progressista (PSP). Ligado a movimentos populares e operários, Paulo defendeu esses interesses enquanto esteve na Assembléia. Seus discursos no plenário incomodavam até mesmo a membros da mesa. Começava a pressão por sua renúncia. Os suplentes reagiam: “Ele tem ideias comunistas.” Era final de 1963 e Paulo elaborava um projeto para organizar cooperativas de pescadores no Estado.

Com o golpe, Paulo teve seu mandato cassado. Acuado, perseguido, ele deixou o País. Seguiu para Cuba, via México. Voltou ao Brasil um ano depois e começou a militar nos movimentos revolucionários. Ingressou na Ação Popular (AL), onde atuou por oito anos na clandestinidade. Chegou a ser expulso da igreja Presbiteriana – atitude revista pela igreja depois dos anos de ditadura. Nos primeiros dias de 1973, num dos anos mais sangrentos da repressão, se viu preso logo depois de descer do trem em direção a Mauá. Levado ao DOI/Codi de São Paulo, foi morto sob tortura nas primeiras 48 horas do cativeiro. Sua blusa de frio foi encontrada no chão da sala de interrogatórios. Até hoje a família carrega a angústia de não ter encontrado seus restos mortais.

Nome: Paulo Stuart Wright
Nascimento: 1933, em Herval, Joaçaba
Profissão: Sociólogo
Militância: Ação Popular (AP)
Desaparecido desde 1973

Reportagem
Jornal A Notícia/Joinville 1/07/03